O Grito da Estrutura

Geólogo Carlos Campos
Goiânia

O mundo do veterinário é o de decifrar murmúrios, miados, mugidos, olhares ou uma inclinação de cabeça. É adivinhar sentimentos nos irracionais, é uma aproximação com os instintos. É identificar a origem de uma dor ou uma tristeza associada a uma indisposição para alimentar. É entender o porquê de uma renuncia à vida. O animal sofre, perde a alegria e tem-se que fazer algo urgente para salvá-lo.

No mundo do engenheiro também deve haver esta comunicação silenciosa. Identificar e avaliar uma patologia estrutural requer sensibilidade para o imponderável, para o imensurável. Não há números nem análise computacional que permita uma avaliação impessoal. O recado da estrutura vem através de uma fissura, um deslocamento, um desaprumo ou uma perda de nível.

São manifestações silenciosas. O grito por socorro de uma fissura de pilar pode ser extremamente incomodo para quem a identifica, mas pode passar despercebido para o inexperiente. Esse grito não chega a seu conhecimento, quando muito, avalia ser “um probleminha” e em muitas ocasiões providencia para que se esconda o sinal com uma massa ou pintura. Manda a estrutura calar.

Nos últimos quarenta anos têm-se notícias, com certa regularidade, de sinistros e catástrofes nas obras de engenharia -- O Pavilhão da Gameleira em Belo Horizonte, mais de 60 mortes. No mesmo ano de 1971 o Elevado Paulo de Frontin no Rio, mais de 20 mortes. O Edifício Palace II também no Rio e tantos outros pavilhões, igrejas e pálaces dois. Ainda não saiu totalmente da mídia o mais recente, o desabamento do túnel do metrô de São Paulo,

Sem exceções, todas estas obras pediram por socorro e ninguém ouviu. O pilar 5 do Pavilhão da Gameleira estava afundando. O grito por socorro do pilar não foi suficiente para paralisar a obra. Havia um cronograma a ser cumprido. O Palace II no Rio por mais de dois anos gritou por socorro. Os responsáveis, construtora e síndicos do condomínio, optaram por aplicar um analgésico. Algum técnico se dispôs a aplicar uma “massinha” barata onde saia fragmentos de um dos pilares. Por dias, o metrô de São Paulo clamou por socorro. Fissurou o solo no entorno, incomodou a vizinhança e aumentaram as infiltrações, por fim, fissurou o concreto do túnel e mesmo assim só desabou no dia seguinte.

Para exemplificar este pedido de socorro, pode-se recorrer a dois exemplos reais - Uma faxineira de um determinado edifício notou que apesar da limpeza sempre aparecia fragmentos de concreto no pé do pilar. Chamou a síndica. Esta por sua vez acionou a construtora que se dirigiu ao local já com especialistas. O pilar estava em processo de ruptura. Escorado e reforçado, nem todos os moradores perceberam o que estava acontecendo. Em outro edifício o síndico percebeu as fissuras, pediu ajuda. Era mais grave. O pilar estava praticamente rompido por esmagamento do concreto. A armadura principal já estava arqueada. Os moradores tiveram que desocupar o edifício por uma noite. Após 24 horas voltaram. O grito do pilar foi ouvido e uma possível tragédia evitada.

Felizmente o número dos que ouvem as manifestações das estruturas é grande e providências são tomadas com certa freqüência. São inúmeros os casos de intervenções a tempo e bem sucedidas, cujo conhecimento fica restrito aos envolvidos. Quando aparecem na mídia, pouco há o que fazer.

Assim como no mundo humano, onde há gritos descontrolados e ruidosos por nada, pode-se dizer também que nem toda fissura em uma estrutura de concreto é grito por socorro. Existem também as intervenções com execução de reforços, baseados em uma má interpretação, sem necessidade. São intervenções que satisfazem a consciência do empreendedor, ótimo para o bolso de quem executa e apenas a estrutura sabe que não precisava da intervenção.

Sem entrar no mérito das patologias, pode-se comentar que as de origem térmica geralmente são juntas que a edificação providencia por ela mesma na ausência de uma projetada. Pode-se também comentar das fissuras inerentes ao comportamento do concreto. Portanto, não são todas as fissuras que expressam um pedido de socorro. Cabe ao especialista manter o dialogo com a estrutura e identificar o recado.

Há uma máxima jurídica que diz “a ninguém é dado o direito de desconhecer a lei”. Será que o engenheiro pode, por desinformação ou falta de experiência, ignorar o grito da estrutura?